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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Think Fish!



Esta semana voltei ao Góshò, templo de sushi. À entrada estava Nuno Gaia-San, um dos mais carismáticos skatistas da velha-guarda do Porto, que empresta todas as noites um pouco do seu carisma e estilo sóbrio ao bar deste espaço underground do Nº1277 da Av.da Boavista. Digo underground única e exclusivamente porque o Góshò funciona num andar subterrâneo, porque para além disso ali não há mesmo ponta de contra-cultura. Mais do que nunca o sushi está na moda. Para além da decoração sofisticada mas despretensiosa, iluminação confortável e um serviço primorosamente orientado pela Sensei Teresa Guerra, este restaurante é também criativo na oferta de pratos, com propostas interessantes em função dos peixes do dia. O chef Paulo Morais, do QB de Oeiras, é o Maestro da cozinha. Desta vez comecei pela Yaki Hotategai, uma espetada de vieiras grelhada com ar de Eucalipto, passando depois para o Omakase Sushi to Sashimi, que é o mesmo que dizer que me entreguei nas mãos do sushiman para saber o que lhe ia na alma - Não me deixou ficar mal. Para sobremesa, a degustação de gelados, que foge à norma em termos de sabores e cumpre bem a sua função digestiva. A carta de vinhos é muito boa, não fosse feita pelo reputado escanção Manuel Moreira, e é naturalmente pertinente em relação ao tipo de pratos apresentados no menu. No final, analisados todos os ingredientes que nos fazem querer voltar a um lugar, o preço é “honesto” quando comparado àqueles que são praticados por restaurantes da mesma categoria mas, de facto, no Góshò (aliás como na maior parte dos restaurantes de Sushi) o peixe não é para todas as bolsas.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Noz em Nova Iorque.



Raquel Sanguedo foi, desde sempre, uma daquelas pessoas que acham que “só os peixes mortos vão com a corrente”. Foi contra a corrente que há seis anos fugiu do Porto para Nova Iorque para fazer um MBA. Com um horário apertado pelos estudos, começou a trabalhar nas horas vagas a servir à mesa no número 118 de St.Marks Place, no St.Dymphna’s, um restaurante irlandês no coração de East Village. É um lugar muito simpático, um restaurante-bar de bairro, meeting point de artistas, despretensioso, e onde se come muito bem. Não demorou muito tempo até a Raquel se tornar gerente, e ser a imagem de marca da casa. De sorriso rasgado e braços, literalmente, abertos a todos aqueles que ali entram, passou, pouco tempo depois, de gerente a sócia, até que no final de 2007 acabou mesmo por tomar conta do lugar. O St.Dymphnas é dela.
Curiosamente, St.Dymphnas (Santa Dymphna) é a padroeira daqueles que sofrem de afecções mentais e nervosas, o que, garanto-vos, não ser o caso desta portuguesa de 31 anos que, com um percurso digno de se tornar argumento para um filme, tem vindo a marcar terreno na Big Apple.
O vinho a copo, ou neste caso o wine by the glass, é prática comum em grande parte dos bares e restaurantes trendy da cidade, não sendo excepção no St.Dymphnas, muito embora os vinhos portugueses pouco ou nada representados, segundo percebi porque em termos de preço agora agravado pelo valor alto do Euro em relação ao Dólar, se torna muito difícil de competir com os vinhos da Califórnia, Chile, Argentina, entre outros.
Mas a história não fica por aqui. A Raquel, como já referi, e como boa portuguesa que é, tem um enorme jeito para receber pessoas e para as servir. Tendo os contactos e o know-how acumulados por alguns anos na área da restauração, começou a fazer, com a sua irmã Patrícia, pequenos serviços de catering para empresas e pequenas festas. Criaram então a Noz Home & Catering. No seu site (nozcatering.com), irrepreensível em termos de imagem, podemos ler qualquer coisa como isto que aqui deixo em tradução livre: “Um reino independente desde o séc.XII, Portugal tem uma das mais ricas histórias e culturas de toda a Europa. (...)A Noz Home & Catering, uma companhia portuguesa sediada em Nova Iorque, traz-lhe, através do Atlântico, os autênticos sabores, as especialidades e a decoração da sua terra natal (...).”
Com clientes como Paul McCartney, Calvin Klein, Armani, Carolina Herrera, Vanity Fair ou Elle, é de coração posto na escolha dos diferentes produtos e no cuidado com a sua imagem que fazem a gestão de duas vertentes distintas dentro da mesma empresa, por um lado a realização de serviços de catering de qualidade, com uma média de oito serviços por dia e, por outro, a promoção e venda de produtos portugueses como jóias, serviços de mesa, entre outros.
A cereja no bolo é o facto de estas duas empreendedoras serem bonitas, o que nos ajuda a contrariar a imagem da emigrante portuguesa com bigode, vestida de preto, e que, mesmo quando já está bem na vida, continua a carregar, de semblante triste, o fardo do fado. Estão de parabéns porque, em Nova Iorque, dizer St.Dymphna’s ou Noz Home & Catering, é dizer: “É assim que se faz em Portugal, e bem”.

JMA
Publicado no Semanário Económico

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Os Moreira.



A Dona Palmira diz, com muita graça, que foi já há 29 anos que se casou, e veio de casa dos pais para ali para Matosinhos, para a Heróis de França. “Nos primeiros tempos chorava de manhã à noite”, até que um belo dia o marido, o Senhor António, se zangou com ela e lhe disse que, se ela não queria estar ali com ele, a ia levar onde a tinha ido buscar, que não queria ali ninguém contrariado. Foi “trigo limpo, farinha amparo”, e viram os filhos a crescer ali na rua e são felizes até hoje. Há 26 anos pegaram no Salta o Muro e, desde aí, fazem também felizes todos aqueles que ali entram para saborear os seus petiscos. Da mobília desta casa fazem parte a Carla, que tem uns olhos de um azul caribenho, e o Augusto, um leixonense ferrenho que ostenta fantásticas pulseiras e anéis de ouro, que lhe dão um toque distinto no manuseio das travessas. A Carla e o Augusto não são Moreira mas são irmãos, e servem naquele restaurante, respectivamente, há seis e oito anos.
À entrada, atrás do seu balcão (e aquele balcão é mesmo dele, porque dali nunca o vi sair, a não ser para se sentar numa das mesas livres para comer com o pessoal, quando terminado o serviço) temos sempre o Sr. António que, de caneta Bic atrás da orelha, vai recebendo quem chega. Quem vai ao Salta o Muro sabe que, à partida, vai esperar, e de pé, o que não é necessariamente um problema, uma vez que o Sr. António sabe bem como entreter os clientes com uns jaquinzinhos fritos, quando os há, umas tiras de presunto cortadas na hora, broa, azeitonas e umas lambretas como só ele as sabe tirar. Uma vez sentados à mesa, são-nos enunciadas, em voz rouca pela Carla, ou numa voz mais aguda pelo Augusto, as iguarias do dia, que são sempre diferentes e boas. Bacalhau assado na brasa, robalo grelhado, raia frita, salmonete, sardinhas (no tempo delas, e ali o tempo delas é levado a sério), ou a caldeirada de peixe, são algumas das sugestões que aqui deixo ficar. Uma vez orientadas as coisas na cozinha, a Dona Palmira faz uma visita às mesas, sempre com uma história engraçada para contar, do tempo em que a Maria Cachucha era nova e as histórias começavam por “Era uma vez...”. Diz-me sempre, “sabe que a vida, às vezes, é complicada mas é muito bonita”. No fim do jantar é-nos servida uma das melhores mousses de chocolate do país.
A decoração é rústica, com as madeiras pintadas de “verde água”, e remete para a época em que o Salta o Muro ainda era uma mercearia e não tinha esse nome, e os trabalhadores das docas saltavam o muro das traseiras para ali irem petiscar qualquer coisa. Os preços por refeição ficam entre os 10 e os 15 Euros.
Podia deixar aqui o número de telefone, mas não vale a pena, uma vez que não se aceitam marcações. O nome da rua está na ali atrás, na primeira frase do texto, e o número da porta é o 386.