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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Uma cidade de Itália ou toda a Ibéria.



"Ai Topsius, Topsius! -Rosnava eu, - Que mulheres! Eu estouro, esclarecido amigo!
O sábio afirmava com desdém que elas não tinham mais intelectualidade que os pavões dos jardins de Ântipas; e que nenhuma decerto ali lera Aristóteles ou Sófocles!...Eu encolhia os ombros. Oh esplendor dos céus! por qual destas mulheres, que não lera Sófocles, não daria eu, se fosse César, uma cidade de Itália ou toda a Ibéria."

In A Relíquia, Eça de Queirós.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Os Sulcos.


"-Não vale a pena, Zé Fernandes. Há uma imensa pobreza e secura de invenção! Sempre os mesmos florões Luís XV, sempre as mesmas pelúcias... Não vale a pena!
Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo me impressionava o seu horror pela Multidão - por certos efeitos da Multidão, só para ele sensíveis, e a que chamava os “sulcos”.
-Tu não sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao passar, e se instala no olfato, e estraga para todo o dia o ar respirável. É um dito que se surpreende num grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos fica colado à alma, como um salpico, lembrando a imensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura intolerável pela pretensão, ou pelo mau gosto, ou pela impertinência, ou pela relice, ou pela dureza, e de que se não pode sacudir mais a visão repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo, são as pequeninas misérias duma Civilização deliciosa!"


Eça de Queirós, in A Cidade e as Serras.