Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Portuguesa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Portuguesa. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O espírito de parecer vulgar.



"Os artistas, que, em geral, se fazem notar pela sua excêntrica banalidade e que se distinguem dos burgueses porque vivem as extravagâncias que os burgueses reprimem em si próprios, não se pareciam nada com Germa. Ela tinha o espírito de parecer vulgar."

Agustina Bessa-Luís, In A Sibila.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Uma cidade de Itália ou toda a Ibéria.



"Ai Topsius, Topsius! -Rosnava eu, - Que mulheres! Eu estouro, esclarecido amigo!
O sábio afirmava com desdém que elas não tinham mais intelectualidade que os pavões dos jardins de Ântipas; e que nenhuma decerto ali lera Aristóteles ou Sófocles!...Eu encolhia os ombros. Oh esplendor dos céus! por qual destas mulheres, que não lera Sófocles, não daria eu, se fosse César, uma cidade de Itália ou toda a Ibéria."

In A Relíquia, Eça de Queirós.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Teoria e Prática.


"Toda a teoria deve ser feita para poder ser posta em prática, e toda a prática deve obedecer a uma teoria. Só os espíritos superficiais desligam a teoria da prática, não olhando a que a teoria não é senão uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria. Quem não sabe nada de um assunto, e consegue alguma coisa nele por sorte ou acaso, chama "teórico" a quem sabe mais e, por igual acaso, consegue menos. Quem sabe, mas não sabe aplicar - isto é, quem afinal não sabe, porque não saber aplicar é uma meneira de não saber, tem rancor a quem aplica por instinto, isto é, sem saber que realmente sabe. Mas, em ambos os casos, para o homem são de espírito e equilibrado de inteligência, há uma separação abusiva.

Na vida superior a teoria e a prática complementam-se. Foram feitas uma para a outra."


Fernando Pessoa, em Revista de Contabilidade, Nº1, Pág.5, Janeiro de 1926.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Os Sulcos.


"-Não vale a pena, Zé Fernandes. Há uma imensa pobreza e secura de invenção! Sempre os mesmos florões Luís XV, sempre as mesmas pelúcias... Não vale a pena!
Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo me impressionava o seu horror pela Multidão - por certos efeitos da Multidão, só para ele sensíveis, e a que chamava os “sulcos”.
-Tu não sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao passar, e se instala no olfato, e estraga para todo o dia o ar respirável. É um dito que se surpreende num grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos fica colado à alma, como um salpico, lembrando a imensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura intolerável pela pretensão, ou pelo mau gosto, ou pela impertinência, ou pela relice, ou pela dureza, e de que se não pode sacudir mais a visão repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo, são as pequeninas misérias duma Civilização deliciosa!"


Eça de Queirós, in A Cidade e as Serras.