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domingo, 10 de outubro de 2010

Sobre a preguiça.



Preguiça.

As pessoas trabalham mais hoje do que alguma vez aconteceu. Di-lo o filósofo suíço radicado em Inglaterra Alain de Botton, que teve a sorte que muitos de nós desejariam – é herdeiro de uma grande fortuna familiar, apesar de por um daqueles arbítrios que apenas os milionários se podem permitir, decidiu prescindir dela, e viver apenas dos seus ganhos como escritor.

Temos a sensação que vivemos na era do lazer, das férias, das viagens por prazer, mas é capaz de não ser assim. Trabalhamos demais diz ele. Na Idade Média a maior parte das pessoas trabalhava até ganhar o dinheiro que precisava para sobreviver e depois parava para desfrutar do que conseguira. Só voltava a trabalhar quando o dinheiro acabava. Na era industrial as pessoas começaram a cumprir as jornadas regulares de trabalho.

Hoje vivemos obcecados em ter uma vida produtiva. Trabalhar muito. Trabalhar incessantemente. Todos conhecemos alguém que fica com inquietações ao domingo à tarde com saudades do escritório. Ou quem invente desculpas para não tirar férias. Não é por acaso que nas férias aumentam as separações entre casais, os conflitos entre pais e filhos tendem a agudizar-se e os níveis de ansiedade para quem está habituado à rotina sobem imenso.

É difícil aceitar a preguiça. Aquela que é desejada, permitida, feliz. Porque também a há desgraçada, nascida da revolta, quando nos obrigam a algo que não desejamos. Falo daquela que irrompe, depois de um momento de satisfação, cumprido com um bom repasto ou de uma conversa agradável. É aí que, consolado, sem nenhum desejo para ser realizado, o corpo e a mente se entregam ao repouso, reconciliando-se com o mundo.

É do senso comum ouvir dizer-se que os portugueses trabalham pouco. Tenho dúvidas. Não sabem é, na maior parte das vezes, optimizar de forma qualitativa o seu tempo de trabalho. O historiador holandês Johan Huizinga defende que uma vida produtiva só é possível com muitos momentos de improdutividade. Ao homem da produção, do consumo e do trabalho, contrapõe o homem do jogo, do lúdico, da festa. Para ele, o homem trabalha, apenas porque deixou de saber desfrutar.

Ou seja, não sabe o que fazer com o ócio. Com o trabalho não. Vive-o como obrigação. Necessidade. Forma de disciplina. Paixão, para quem gosta muito do que faz. Forma de felicidade. Uma maneira de se manter entretido e de afastar a ideia de morte. Seja o que for, o trabalho identifica. Somos o que fazemos. É por isso que é tão difícil estar no desemprego. Não é apenas o dinheiro. É também a identidade de cada um que se joga. Fora do mercado de trabalho é como se não se existisse.

Estranha sociedade esta em que uma parte está desesperada, por excesso de trabalho, e a outra por não ter emprego. Uma sociedade onde se fala do esbanjamento de recursos naturais, como o petróleo e a água, e onde se esquece o desperdício do recurso mais precioso, o ser humano, com direito ao trabalho e à preguiça, porque o tempo é o principal recurso não renovável.


Vítor Belanciano, Público 6-10-2010.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Promover Portugal.



"Without promotion something terrible happens: nothing."
P.T.Barnum.


O Rip Curl Pro Portugal é um bom exemplo daquilo que uma marca/evento pode fazer por uma determinada região. É que sai mesmo toda a gente a ganhar. Ler aqui o artigo do Público.

A ideia de Indústrias Criativas em Portugal não consegue passar do jargão político-institucional. Os suspeitos do costume apoderaram-se do termo, explorando-o em conferências, cursos e afins, mas, de facto, não conseguem chegar a quem FAZ. É importante termos presente o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido noutros países e cidades do mundo, mas não podemos querer aplicá-lo directamente à nossa aburguesada realidade. Exemplos como o da Rip Curl são uma pedrada no charco em que vivemos, mas há de haver por aí quem pergunte: "E o que é que isto tem a ver com Indústrias Criativas?".

sábado, 29 de maio de 2010

Sobre o Folclore.



É ler aqui na edição online do Público de hoje o Comentário de Manuel Carvalho sobre os "espartilhos" da abordagem à criatividade na cidade do Porto. Um must.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Sobre a(s) Água(s).


Três Águas.

"Anteontem de manhã fui à praia e começou a chover quando eu estava tão perto do mar como do meu carro. Nem sequer pensei em voltar. Fugi da chuva para dentro do mar. O mar estava calmo e aristocrático, tratando as gotas de chuva como queixas do proletariado.
Pensei que tinha sido apanhado. Mas é um defeito do pensamento. Água é água e mergulharmos e nadarmos nela é melhor do que fugir dela ou apanhar com gotas dela. É como o ar e o vento: só conta o oxigénio. E a frescura. O vento é ar novo. O mar é água-sangue. A diferença entre a salgada e a doce é, biológica e gastronomicamente falando, absurda.
Nunca tinha ido ao mar quando estava vento e frio e chuva e nuvens negras como o azedume. Mas era Maio. E Maio é um mês de mar. E eu fui. O mar tapou-me, tão cinzento como o céu. Abraçou-me no frio dele. As gotas de chuva eram quentes; rebuçados. O mar era uma gabardine; a minha protecção. Fartei-me de nadar, com medo que tivesse frio quando saísse. Não tive. Ficou tudo molhado. A minha toalha; as minhas sandálias; a areia.
Cheguei a casa e tomei um duche e, enquanto tomava, comparei as três águas que me lavaram. A água do mar foi a mais doce e deliciosa. A água do céu foi a segunda. E, muito longe das outras duas, a água do banho, quentinha e fumegante, foi a menos boa. Mas boa. Mas mais boa por causa da anteriores e melhores. Mar; chuva e água canalizada. É uma grande sequência. A partir de agora, passo a lavar-me com a chuva do céu."


Miguel Esteves Cardoso, Público 15/05/2010.


terça-feira, 27 de abril de 2010

O Livro Verde.



A Comissão Europeia criou um Livro Verde com directrizes para o desenvolvimento das Indústrias Criativas. Ler aqui o artigo do Vítor Belanciano/Público.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Sobre o estado do cinema português.



Nem de propósito. Na edição online do Público de hoje Inês Nadais analisa o estado em que se encontra o cinema português e alerta para o risco que corremos de ficar sem ele. Terá chegado a hora de irmos para a Nigéria?